por Monica De Bolle.

Ostrich-man-head-in-sand-1Foi com grande consternação, mas sem surpresa alguma, que li matéria publicada pelo jornal Valor Econômico sobre os artistas e intelectuais que apoiam a reeleição da Presidente-candidata. Com tristeza, vi, novamente, parte relevante da classe artística nacional, gente que já contribuiu tanto para a música, o teatro, a literatura, entregar-se de corpo e alma a um projeto “sonhático” em que o pesadelo da realidade se impõe. A “Primavera dos Brasileiros”, o que é a “Primavera dos Brasileiros”?

A Petrobras, falida, destroçada pela sanha de poder desse grupo que se instalou em Brasília em 2003 para nunca mais sair – ou, assim gostariam. Petrolão, mensalão, risco de apagão. Espirradeiras e espinhos crescem no adubo da “Primavera dos Brasileiros”. “Os brasileiros não se importam com a corrupção, não de verdade”, disse-me um amigo próximo.

Se a expressão máxima da cultura nacional tolera tudo isso e muito mais, ele está certo, tão desconcertantemente certo que dá vontade de não ouvir mais uma música, não abrir sequer um livro dos sonháticos que acreditam, como crianças ingênuas, na fantasia criada pelo PT. “Vá ao teatro, mas não me chame”, como dizia a camiseta. Sobretudo se for para assistir a alguma peça encenada por artistas primaveris.

Os brasileiros não se comovem com a corrupção. O que comove os brasileiros? A falta de crescimento e a inflação descuidada por certo não incomodam os artistas e intelectuais da primavera – eles hão de receber recursos do governo mesmo que a economia continue empacada. Ficam profundamente emocionados com a redução da desigualdade do País, essa alardeada por gente que perdeu o sentido de honestidade intelectual, que atribui a si o feito de sucessivos governos, que não reconhece que a história da diminuição da desigualdade brasileira é uma história incompleta.

História que corre o risco de murchar com a economia desgovernada e com ações do Estado que a prejudicam diretamente – os tributos regressivos, a falta de cuidado com a inflação, os generosos empréstimos dos bancos públicos que ameaçam a estabilidade fiscal e o bolso do contribuinte brasileiro. Aliás, diz pesquisa do IPEA, a concentração de renda voltou a aumentar nos últimos anos. A Pnad do IBGE corrobora.
Onde está o bom senso da classe artística brasileira? O julgamento racional dos intelectuais? Parece que “Tropeçou no céu como se fosse um bêbado / Flutuou no ar como se fosse um pássaro / E se acabou no chão feito um pacote flácido / Agonizou no meio do passeio público / Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”.