Por Samuel Suss, advogado, gestor de risco e compliance e presidente do IDECORP.

Há cerca de um mês, em evento onde recebeu o título de doutor honoris causa em comunicação  e cultura na Universidade de Turim, norte da Itália, Umberto Eco afirmou que as redes sociais dão o direito à palavra a uma “legião de imbecis” que antes falavam apenas “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”.

Na mesma ocasião, Eco disse que “normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel”.

Na verdade, a irresignação do semiólogo italiano com as novas tecnologias não é recente.

Em entrevista concedida ao Estadão, em 2010, Umberto Eco afirmou : “ O livro, para mim, é como uma colher, um machado, uma tesoura, esse tipo de objeto que, uma vez inventado, não muda jamais. Continua o mesmo e é difícil de ser substituído. O livro ainda é o meio mais fácil de transportar informação. Os eletrônicos chegaram, mas percebemos que sua vida útil não passa de dez anos. Afinal, ciência significa fazer novas experiências. Assim, quem poderia afirmar, anos atrás, que não teríamos hoje computadores capazes de ler os antigos disquetes? E que, ao contrário, temos livros que sobrevivem há mais de cinco séculos? Conversei recentemente com o diretor da Biblioteca Nacional de Paris, que me disse ter escaneado praticamente todo o seu acervo, mas manteve o original em papel, como medida de segurança.”

O semiólogo parecia não compreender a tecnologia e não enxergava que a sua evolução apenas vinha conferindo novos formatos ao que, na essência, sempre foi a mesma coisa: a obra intelectual do autor. Sem contar que, apenas cogitar a ideia de se livrar dos exemplares impressos em razão da digitalização do acervo, certamente levaria o diretor da Biblioteca Nacional de Paris ao manicômio.

Não demorou muito para Eco mudar de ideia. Em 2012, declarou em entrevista concedida à revista Época: “Sou colecionador de livros. Defendi a sobrevivência do livro ao lado de Jean-Claude Carrière no volume Não contem com o fim do livro. Fizemos isso por motivos estéticos e gnoseológicos (relativo ao conhecimento). O livro ainda é o meio ideal para aprender. Não precisa de eletricidade, e você pode riscar à vontade. Achávamos impossível ler textos no monitor do computador. Mas isso faz dois anos. Em minha viagem pelos Estados Unidos, precisava carregar 20 livros comigo, e meu braço não me ajudava. Por isso, resolvi comprar um iPad. Foi útil na questão do transporte dos volumes. Comecei a ler no aparelho e não achei tão mau. Aliás, achei ótimo. E passei a ler no iPad, você acredita? Pois é. Mesmo assim, acho que os tablets e e-books servem como auxiliares de leitura. São mais para entretenimento que para estudo. Gosto de riscar, anotar e interferir nas páginas de um livro. Isso ainda não é possível fazer num tablet.”

Ora, muito embora eu seja um apreciador dos livros impressos, reconheço que minha postura seja mais fruto de um hábito enraizado do que oriundo de algum tipo de vantagem em relação ao formato eletrônico. Se gosto, tal como Eco, de grifar e fazer anotações durante minhas leituras, os leitores eletrônicos me possibilitam isso e muito mais: pode-se, em poucos segundos, localizar qualquer informação por meio dos instrumentos de busca nos livros armazenados eletronicamente, missão bem mais trabalhosa nos livros impressos.

A recente declaração de Umberto Eco, convenhamos, denota um discreto desconforto com a democratização da manifestação da opinião promovida pela internet.

Essa irresignação, na verdade, não é apenas sua. Já há algum tempo, formadores de opinião e sedizentes intelectuais têm manifestado indignação contra um número cada vez maior de pessoas que ousam, vejam só, ter voz em um meio de comunicação amplo e democrático como a internet, especialmente nas chamadas mídias sociais.

Se antes os que eram autorizados a opinar provinham das colunas dos jornais e do universo acadêmico, hoje estes senhores e senhoras são obrigados a ombrear com qualquer pessoa que, à distância de um clique, pode se manifestar sobre qualquer tipo de tema.

A livre manifestação do pensamento é um direito tão ou mais caro do que a própria liberdade de imprensa. Esta, por sua vez, durante muito tempo foi um dos únicos canais por onde o livre pensar podia ser exercitado, com óbvias restrições de espaço. Nesse sentido, a internet e as mídias sociais inauguraram uma época sem paralelos em nossa história, fornecendo ao cidadão comum um vasto território para o livre pensar e opinar, sem as amarras das linhas editoriais e dos compromissos ideológicos. Não que eu acredite que tudo o que floresce da web seja edificante, longe disso. Mas a possibilidade da manifestação quase irrestrita do pensamento, dando-se voz à mais humilde das gentes, é, sem dúvida, algo que não se deve lamentar. Sem contar que a imprensa ou mesmo o mercado editorial nunca se constrangeram em permitir a circulação de bobagens.

Não a toa, aqui no Brasil os que mais repercutiram as declarações de Umberto Eco foram os de cepa Marxista, estes cidadãos impolutos, que se julgam detentores das virtudes humanas. Compreende-se. Como os grandes jornais, em sua maioria, não ecoavam opiniões de linhas mais conservadoras, deve no mínimo ser assustador perceber como os moinhos giram em razão de outros ventos.

Recentemente, em entrevista concedida à revista Veja, Eco tentou se explicar:

“As pessoas fizeram um grande estardalhaço por eu ter dito que multidões de imbecis têm agora como divulgar suas opiniões. Ora, veja bem, num mundo com mais de 7 bilhões de pessoas, você não concordaria que há muitos imbecis? Não estou falando ofensivamente quanto ao caráter das pessoas. O sujeito pode ser um excelente funcionário ou pai de família, mas ser um completo imbecil em diversos assuntos. Com a internet e as redes sociais, o imbecil passa a opinar a respeito de temas que não entende.”

Ora, o conceito de imbecil nem de longe é este que Eco tentou vender e mesmo que fosse esse o sentido original de sua declaração, não é nenhuma novidade pessoas sem especialidade em determinados temas terem não só liberdade, como também legitimidade para se manifestar e, inclusive, deliberar sobre assuntos que não detém domínio. Esse é um dos traços marcantes de nossas democracias.

Mas se uma “legião de imbecis”, utilizando-se as palavras de Eco, tem legitimidade para compor parlamentos e, inclusive, chefiar nações, nada mais natural que ela possa manifestar-se livremente.

Mais adiante, o semiólogo apresenta uma proposta:

“A internet é como Funes, o memorioso, o personagem de Jorge Luis Borges: lembra tudo, não esquece nada. É preciso filtrar, distinguir. Sempre digo que a primeira disciplina a ser ministrada nas escolas deveria ser sobre como usar a internet: como analisar informações. O problema é que nem mesmo os professores estão preparados para isso. Foi nesse sentido que defendi recentemente que os jornais, em vez de se tornar vítimas da internet, repetindo o que circula na rede, deveriam dedicar espaço para a análise das informações que circulam nos sites, mostrando aos leitores o que é sério, o que é fraude.”

Ora, a vantagem da internet é justamente essa: o acesso irrestrito à informação. Tanto informação de qualidade, como as menos edificantes. Cabe ao leitor fazer a sua própria filtragem. Concordo que um grande número de pessoas não detém discernimento suficiente. Mas esse não é um problema surgido com a internet. A vantagem, hoje, é justamente poder investigar rapidamente as informações veiculadas, confrontando-as com outras fontes.

É exatamente nesse ponto que a proposta de Eco mostra-se inviável, pois a dinâmica é justamente oposta. É o próprio mundo virtual que possibilita aos leitores a averiguação do que tem ou não fundamento naquilo que é publicado na imprensa. Se antes os leitores eram obrigados a confiar em sua própria intuição acerca da credibilidade de uma dada notícia, no máximo se socorrendo a veículos concorrentes, hoje eles detêm mecanismos para rapidamente contrapor as notícias e tomar suas próprias conclusões. Antes, um mesmo jornal prestigioso podia me dar informação valiosa sobre um determinado tema e, na página seguinte, dar, no jargão dos jornalistas, uma tremenda barriga, sem que os leitores pudessem se dar conta.

A sociedade não delegou à imprensa a prerrogativa de, com exclusividade, informar e opinar. Esse espaço foi sendo preenchido naturalmente ao longo da história, da mesma forma que, também de maneira natural, as pessoas vêm se sentindo cada vez mais confortáveis em emitir suas opiniões.

Para quem não gosta do que vê, basta um clique.