por Sibele Bertoli.

amigosAo escutar as últimas notícias sinto uma onda de medo invadir meu corpo. Quase catatônica, questiono o poder da destruição e do terror. Tenho amigos espalhados mundo afora e pelo Brasil também. Amo meu país e nunca pensei em sair daqui. Neste lugar lindo e tropical, construí minha família. Pensar nos meus amores aumenta o medo. Procuro me conter. Assim aprendi com a psicanálise, a saber, tentar tolerar as sensações que me paralisam e usar o aparelho de pensar (Wilfred Bion).

Ataques terroristas, corrupção impune, crimes ambientais. Existiria um antídoto contra este impulso destrutivo que carregamos há tanto tempo? Talvez a amizade, este mundo de pulsão de vida que também remonta ao nosso passado coletivo.

Sabemos que a epistemologia desta palavra é incerta porque é tão antiga quanto a necessidade de nossa espécie em se proteger. Um leão, ou melhor, uma panthera leo spelaela (leão das cavernas), este bichinho nada fofo medindo 4 metros, faminto, não devia parecer tão amistoso quanto o do zoológico e nós, meros humanos fraquinhos, jamais conseguiríamos vencê-lo sem a ajuda dos companheiros de luta. Irmãos de mãos dadas em favor da vida e da sobrevivência do grupo. Bingo.

Sem precisar matar um leão de verdade por dia, ainda hoje somos salvos pelos amigos. Eu mesma fui muitas vezes contemplada com verdadeira amizade, este porto seguro dos sentimentos e dos lados obscuros da alma. Ali, onde o abraço parece ser o melhor lugar do mundo, posso ser ridícula, rir sem sentido e chorar sem pudor. Sou eternamente grata por isso. Diferente da paixão amorosa, a amizade é uma espécie de amor que reparte felicidade e dor e, sobretudo, resiste bravamente ás vicissitudes.

Agora que já consigo respirar com mais tranquilidade ao lembrar dos amigos, posso continuar a pensar de forma mais branda até mesmo sobre o terror.

O terrorista, neste sentido, é o oposto do verdadeiro amigo, pois não suporta a beleza da diferença. Ditador incansável de seus rígidos pensamentos e vontades, pode ser encontrado além dos muros das facções. Está nas famílias e instituições disfarçado de defensor ardente dos costumes. Homem ou mulher-bomba do nosso cotidiano, ao menor sinal da singularidade, divergência de opinião e de escolhas se explode na esperança de levar consigo o encanto da humanidade e suas conquistas.

Entretanto, a força da amizade desafia as leis do tempo e do horror, na música, nas artes, na vida. Cantada apaixonadamente na literatura e no cinema com Dom Quixote e Sancho Panza, Os Três Mosqueteiros e tantos outros, esta relação de intimidade se traduz em fidelidade. O que seria de Sherlock Holmes sem Dr Watson e de Woody sem Buzz Lightyear?

O verdadeiro amigo mesmo quando sabiamente questiona as certezas do outro jamais o abandona, e como bem diz Jean-Bertrand Pontalis: amigo mesmo é quem nos protege da fúria raivosa e faz recuar a morte. Parece um lindo antídoto contra o terror, concordam?

O meu melhor e mais amigo abraço,